Trabalhos de Letras e Psiquiatria pesquisam elo de música e alcoolismo.
De 48 duplas compiladas, apenas sete não falam de álcool em canções.Francismari Barbin estuda os aspectos culturais
que resultam na associação positiva entre música
e álcool (Foto: G1/Raul Zito)
As pesquisadoras levaram a sério versos como "Tudo que eu quero ouvir: eu te amo e open bar", de Michel Teló, e "É meu defeito, eu bebo mesmo", de Fernando e Sorocaba. O trabalho de Mariana catalogou 243 letras de sertanejos que citam bebidas. Apesar de o trabalho abordar mais hits atuais, os campeões de citações provam que o tema é recorrente na história do gênero: os veteranos João Carreiro & Capataz, com 19 letras sobre "bebedeira", e os novos astros João Neto & Frederico, com 17.
De 48 artistas famosos do gênero sertanejo estudados por Mariana, apenas sete não possuíam nenhuma música abordando a temática, e 85% das duplas abordam o assunto em pelo menos uma canção.
Há outros estudos recentes sobre sertanejo, mas não o bastante, segundo elas. "Encontrei referências sobre a música sertaneja até a década de 80, mas o sertanejo universitário ainda é um fenômeno a ser estudado", diz Mariana Lioto em entrevista ao G1, que escreveu a dissertação "Felicidade engarrafada: Bebidas alcoólicas nas músicas sertanejas" (conheça o trabalho). Já para encontrar exemplos de letras de sertanejos sobre "bebedeira", ela não teve dificuldade.
"Acredito que existe um embate de discursos. De um lado temos a esfera médica e religiosa dizendo que beber causa dependência, gera doenças, etc. É um discurso chato, difícil de conquistar adesão. De outro lado temos a música falando que beber te dá amigos, mulheres, sexo, acaba com todos problemas", diz.
A tese do trabalho de Mariana é de que a música sertaneja não só reflete um comportamento já existente, mas ajuda a "naturalizar" e incentiva o hábito de beber, fazendo associações positivas com mulheres, festas, fuga do trabalho, e escondendo os efeitos negativos.
"Interessante perceber que em outros gêneros - no rap, por exemplo - é fácil encontrar músicas que criticam o consumo abusivo", nota Mariana.
"Eu queria um tema ainda pouco estudado no Brasil e ao mesmo tempo com importância clínica e sociocultural. A música possui um elo estreito e forte com a sociedade e a cultura vigente. Isso pode contribuir para que as pessoas associem bebida com diversão ou com a 'cura' de diversos problemas, principalmente quando é evidenciado este apelo em suas letras", explica a psicóloga.
"Parece que a tarefa de mostrar o lado negativo da substância ficou basicamente a cargo dos técnicos de saúde" é o lamento conclusivo de Francismari.
"Ao pesquisar sobre a relação dos estudantes com o sertanejo universitário, muitos destaques foram feitos aos elementos extramusicais. Por exemplo, o fato de ser uma música com letra que 'fala' sobre o que eles estão vivendo, destacaram também o ritmo mais agitado, a forma pela qual os cantores se comunicam com os fãs e questões afetivas que as músicas proporcionam (amizades, namoros e laços familiares)", diz Daniela.
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