sexta-feira, 13 de junho de 2014

Andar de Novo: O que a TV não mostrou

A transmissão da abertura da Copa do Mundo ontem deixou muita gente frustrada e com dúvidas sobre o que aconteceu com a demonstração do projeto Andar de Novo, do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que prometia fazer uma paraplégico levantar da cadeira de rodas, caminhar no gramado da Arena Corinthians e chutar uma bola de futebol. Tudo isso, usando uma veste robótica (exoesqueleto) controlada pelo cérebro.
Em entrevista ao Jornal Nacional na noite de ontem, Nicolelis disse que a demonstração foi executada em 16 segundos. Na transmissão da TV ao vivo, porém, foi possível ver o paraplégico vestindo o exoesqueleto por apenas 2 segundos, parado em pé, e fazendo apenas um pequeno movimento com a perna para tocar uma bola colocada diretamente à sua frente.
Muitos espectadores ficaram indignados, e culpam a televisão por não ter mostrado aquilo que era esperado da demonstração. Procurada pelo Estado na noite de ontem, porém, a assessoria de imprensa do projeto confirmou que nenhum outro movimento foi realizado pelo exoesqueleto, além daquele que aparece nos 2 segundos de transmissão da TV. O paciente não se levantou de uma cadeira de rodas, e não andou em nenhum momento. Ele foi colocado em campo já em pé, transportado por um carrinho de golf equipado com um pequeno “guindaste” na parte de trás.
FOTO: Paciente vestido com o exoesqueleto é transportado para o campo da Arena Corinthians. Crédito: Photo by Kevin Cox/Getty Images/PAGOS
As únicas imagens de pacientes caminhando de fato com o exoesqueleto são as que foram postadas na página do projeto no Facebook (http://migre.me/jNXOj). Em todas elas, o robô (que pesa entre 60 e 70 kg) está pendurado por cabos a uma estrutura de metal acima dele, que serve para sustentar seu peso. Não foi divulgada nenhuma imagem de pacientes se levantando de um posição sentada ou caminhando com o exoesqueleto de forma autônoma, como seria necessário para a demonstração da Copa. O que leva a entender que o exoesqueleto não é capaz de ficar em pé e caminhar por conta própria.
Os vídeos no Facebook emocionam. Os detalhes científicos sobre o que está acontecendo ali, porém, só poderão ser avaliados de forma independente por outros pesquisadores uma vez que os dados técnicos dos experimentos estejam publicados em revistas científicas especializadas — algo que, segundo a assessoria de imprensa do projeto, deverá ocorrer nos próximos meses. Por enquanto, não há nenhuma evidência científica disponível que permita determinar qual é o grau ou a qualidade do controle cerebral envolvido.
Há vários outros projetos de pesquisa no mundo envolvendo esse tipo de tecnologia, voltados para a reabilitação de pacientes paraplégicos, tetraplégicos e amputados. Entre eles, alguns exoesqueletos que não utilizam controle cerebral e que já estão disponíveis comercialmente, como o da empresa californiana Ekso Bionics, que já é usado em vários centros de reabilitação ao redor do mundo. (veja vídeo abaixo)
Para mais informações sobre o projeto, veja: Nicolelis e o show da Copa
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